Ciência, Dados e Autonomia: O Futuro da Fisioterapia Esportiva em Debate no CardioFut

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As primeiras atividades do CardioFut cumpriram o cronograma focado em inovação e reabilitação esportiva. A segunda edição do Cardiofut (a primeira aconteceu em 2025, no Fluminense) acontece no Maracanã de 25 a 27 de junho no Maracanã.

Reunindo profissionais que atuam no futebol nacional, o debate combinou o resgate histórico sobre a autonomia da profissão com discussões sobre medicina molecular, inteligência de dados e controle de carga. As apresentações traçaram um panorama de como os departamentos de saúde dos clubes utilizam a tecnologia para prever riscos e monitorar a alta performance.

Autonomia e a Revolução Molecular

A palestra que abriu o evento foi conduzida por Nilson Petroni, profissional com 41 anos de carreira e atual líder do modelo de alto rendimento no Fluminense. Diante de uma plateia repleta de jovens, Petroni relembrou os alicerces da fisioterapia esportiva, homenageando pioneiros como o Dr. José Roberto Prado Júnior (Zé Roberto) e Claudionor Delgado. Ele fez uma defesa da autonomia profissional garantida pela Resolução COFFITO 80. O especialista alertou contra a “tutela silenciosa” do mercado atual, em que profissionais abrem mão do diagnóstico clínico para virarem meros executores mecânicos, e lembrou que a legislação evoluiu para autorizar práticas de alta complexidade.

Deixando para trás o conceito de “apenas deitar o atleta na maca”, Petroni introduziu a era celular e molecular da fisioterapia. Ele compartilhou como o Fluminense monitora o terreno biológico dos atletas através de biomarcadores (CK, LDH e Interleucina 6), ultrassonografia cinesiológica e tecnologias como o laser Fotona é o pioneiro Método MAC (de aceleração cicatricial, da Johns Hopkins). Aos 65 anos, sinalizando sua possível despedida dos gramados, ele convocou a nova geração a assumir a liderança da área com um choque de realidade: “Vontade, eu digo que dá e passa. Quando é que você consegue algo realmente? Com disciplina, disciplina, disciplina. Coragem e competência”.

Integração Diária e o Controle de Carga

Na sequência da programação, a mesa-redonda entre os chefes de fisioterapia dos grandes clubes cariocas detalhou a aplicação prática da ciência no dia a dia do futebol.

Dudu Calçada, fisioterapeuta do Vasco da Gama, abriu o debate destacando que o sucesso do controle de carga depende da anulação do ego e da integração total entre medicina, fisioterapia, fisiologia, nutrição e psicologia.

No modelo vascaíno, o monitoramento começa uma hora antes do treino, direto no celular do atleta, que responde à Percepção Subjetiva de Esforço (PSE) relatando dores, nível de estresse e qualidade do sono. Esse mapeamento preventivo permite que a comissão técnica ajuste na intensidade do trabalho em tempo real e direciona o protocolo de *recovery* pós-jogo, cruzando as respostas subjetivas com termografia e exames de CK (Creatina Quinase) após 48 horas para blindar o elenco.

Critérios e a Barreira dos 90% de Velocidade

O avanço tecnológico também redefiniu os critérios para que um jogador receba alta médica. Fábio Azevedo, chefe de fisioterapia do Botafogo, alertou para o aumento global de lesões musculares devido à intensidade do jogo moderno, defendendo que o retorno aos gramados deve ser guiado por dados exatos, e não apenas pelo tempo cronológico de cicatrização.

O clube adota um modelo de transição estruturado em seis fases distintas. O atleta só avança de etapa após cumprir um checklist estrito que vai desde a ausência de dor à palpação manual (reforçando a semiologia clássica defendida por Petroni na abertura), até testes dinâmicos de salto e força. O grande divisor de águas do processo ocorre na transição para o campo: monitorado via GPS, o jogador precisa atingir obrigatoriamente 90% de sua velocidade máxima individual antes de ser liberado para treinar com o grupo.

Carga Interna e a Individualização Biológica do Atleta

Fechando as discussões da mesa, Puglia, coordenador de fisioterapia do Flamengo, trouxe uma reflexão crucial sobre a interpretação dos dados coletados pelas novas tecnologias.

Segundo ele, analisar apenas as métricas externas fornecidas pelo GPS, como distância total percorrida ou o número de sprints, é um erro, pois cada organismo reage de forma única ao estresse físico.

Para decifrar essa individualidade biológica (a carga interna), o Flamengo utiliza plataformas como NordBord e Force Frame, focadas em monitorar assimetrias de força e comparar o rendimento dos atletas locais com médias do futebol europeu. A partir desse diagnóstico preciso, a transição para os gramados ganha um planejamento semanal rigorosamente escalonado, respeitando o tempo de recuperação e a capacidade adaptativa do tecido muscular diante da alta exigência do esporte de elite.

Nota da Editora – Logística e Organização

Alguns pontos na organização do Cardiofut tiveram que ser ajustados ao longo do primeiro dia. Talvez um evento que cresceu muito rápido, comparado ao do ano passado que tinha só uma plenária, tenha surpreendido pela evolução em números e participações. Já foi comentado sobre a realização de uma terceira edição em 2027 e vale uma avaliação nesse sentido para que no próximo ano tudo fique ainda melhor. Temos acompanhado um número enorme de eventos nessa área e fica fácil para que possamos identificar e até assinalar para os organizadores pontos que precisam ser revistos.

 

Por Maria Luisa Peres (Integrante do Projeto FimdeJogo/DC Press e a Universidade Veiga de Almeida. Supervisão Daniela Oliveira). Edição Cris Dissat.

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Post Author: Equipe Fimdejogo