Bastidores de Ouro: Como o COB Planeja o Sucesso dos Atletas nos Jogos Olímpicos

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Para quem assiste aos Jogos Olímpicos pela televisão, o espetáculo parece acontecer de forma natural assim que o cronômetro começa a rodar. No entanto, por trás de cada medalha e de cada recorde quebrado, existe um trabalho invisível, complexo e altamente estratégico que começa anos antes do evento principal.

Em palestra realizada no CardioFut 2026, Joyce Ardies revelou em detalhes essa engrenagem. Gestora com 13 anos de experiência no Comitê Olímpico do Brasil (COB) e veterana de oito edições de Jogos Olímpicos, a ex-tenista profissional e especialista em administração esportiva mostrou como o país prepara suas delegações para brilhar no maior palco do esporte mundial.

Além dos Quatro Anos: o Significado de “Missão”

Uma das perguntas que Joyce mais escuta em sua rotina é sobre o que a equipe do COB faz nos três anos em que não há Olimpíadas. A resposta costuma surpreender quem está de fora, pois quando os Jogos finalmente começam, a parte mais difícil e complexa do planejamento de bastidores já foi executada.

O Comitê não trabalha apenas em ciclos rígidos de quatro anos. Atualmente, a organização coordena mais de dez missões em um único ciclo, incluindo os Jogos Sul-Americanos, Pan-Americanos, Jogos de Inverno e da Juventude, o que exige o gerenciamento de até seis planejamentos complexos e simultâneos.

Diferente de um mundial de uma única modalidade, no qual a confederação viaja sozinha para competir, uma Missão Olímpica ocorre quando o COB une dezenas de esportes diferentes sob uma mesma delegação. Nesse cenário, a entidade centraliza toda a estrutura logística e operacional para garantir que atletas de até 50 modalidades tenham o necessário para performar em alto nível.

Para que tudo funcione, o trabalho acontece com uma antecedência que varia de um a oito anos. Enquanto o público ainda assimilava os resultados de Paris, o COB já estava com os olhos voltados para Los Angeles e realizando as primeiras visitas de inspeção em Brisbane, na Austrália, sede dos Jogos de 2032.

A Estratégia por Trás da Performance

Quando a delegação viaja, a estrutura é dividida em duas grandes frentes que operam de forma integrada. A delegação institucional cuida de patrocinadores, autoridades e da recepção de familiares, enquanto a delegação esportiva foca inteiramente no desempenho.

Dentro desse ecossistema focado na performance, áreas como bioquímica, biomecânica, fisiologia, psicologia, análise de vídeo e nutrição trabalham em total sinergia. Esse suporte é complementado por equipes de medicina esportiva, fisioterapia e massoterapia dedicadas à prevenção de lesões, além de uma logística complexa que cuida desde os uniformes até o transporte de materiais sensíveis, incluindo os cavalos do hipismo, que exigem cuidados financeiros e afetivos imensos.

Cuidar do atleta também envolve fatores emocionais e de acolhimento cultural. Joyce relembrou que, nos Jogos de Tóquio, o COB identificou historicamente que o rendimento de brasileiros na Ásia sofria quedas devido ao fuso horário extremo e ao estranhamento com a culinária local. A solução foi criar uma base de aclimatação rigorosa antes da abertura da Vila Olímpica e contratar chefs de cozinha brasileiros para treinar os restaurantes parceiros na região sede. Essa iniciativa garantiu o arroz e feijão diários no cardápio, proporcionando o conforto e o bem-estar necessários para que os competidores se sentissem em casa.

O Sucesso em Paris e o “pé na areia” no Taiti

No esporte de alto rendimento, o que funciona para uma modalidade pode ser prejudicial para outra, e a principal função do COB é criar soluções personalizadas para cada cenário.

Durante os Jogos de Paris, por exemplo, o Comitê Organizador sugeriu que os surfistas ficassem hospedados em um navio de cruzeiro no Taiti, a 40 minutos de deslocamento da praia, dividindo o espaço com o público geral. Percebendo que isso quebraria a rotina de leitura diária das ondas, o COB optou por fechar uma pousada privativa para o Brasil a apenas três minutos da água, garantindo isolamento, segurança e alimentação própria.

Da mesma forma, a equipe contornou um problema logístico enfrentado pelo vôlei na França. A programação original exigiria que os atletas passassem até quatro horas diárias dentro de ônibus entre a Vila Olímpica e os treinos. Para evitar esse desgaste físico severo, o COB assumiu o investimento de uma infraestrutura externa e adaptou um ginásio histórico próximo à acomodação, corrigindo problemas de iluminação, climatização e instalando o piso de amortecimento oficial da modalidade.

Essas ações reforçam que a gestão esportiva funciona como uma grande roda invisível, cujo papel principal, como definiu Joyce Ardies, não é ganhar a medalha diretamente, mas blindar o atleta e evitar que ele perca a oportunidade de vencer por qualquer falta de estrutura nos bastidores.

Da próxima vez que você assistir a uma Olimpíada, pense sobre o que acontece nos bastidores. Atividades como a realizada dentro do Cardiofut e uma série de atividades voltadas à comunicação vem trazendo o tema para o conhecimento do público.

 

Por Maria Luisa Peres (Integrante do Projeto FimdeJogo/DC Press e a Universidade Veiga de Almeida. Supervisão Daniela Oliveira). Edição Cris Dissat.

 

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Post Author: Equipe Fimdejogo